quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Desenho a lápis

A sede a consumia. Lembrou-se de que não havia bebido água durante o dia inteiro. Olhou as nuvens e sentiu que elas podiam tornar-se chuva e matar-lhe a sede. Na verdade, havia apenas uma nuvem, distante e pequena: ela pensou ver desenhado ali o rosto de Matias. Agora a nuvem deveria ter-se tornado chuva, deveria ter-lhe aplacado uma sede mais antiga... Esqueceu-se do incômodo que a garganta seca pronunciava e pôs-se a pensar em Matias: havia sonhado com ele na noite passada. No sonho ele estava muito mais próximo do que a nuvem, ela podia sentir-lhe o hálito enquanto falava, olhos fixos nos seus, com um brilho estranho. Ele fez o improvável: pediu-lhe que reconsiderasse. Ela estacou, espantada. Nunca pensou que ele lhe falaria aquilo, tinha certeza de que não diria jamais nenhuma daquelas palavras, com o hálito a lhe perturbar os sentidos, cobrando-lhe um beijo que ela já quis muito dar. No entanto, lá estava ele. Ela recompôs-se e, molhadamente, disse-lhe que não. O que sentia era como a marca de um desenho a lápis, apagado pelo tempo e pelo atrito das palavras. As marcas denunciavam os contornos de um desenho belo, porém inexistente. Aliás, esta foi a palavra-chave que lhe disse: o que sentia era agora apenas um contorno. Era uma moldura sem pintura nem fotografia. Não servia para pendurar na parede, não servia para ser contemplada, abrigava apenas vácuo. Matias entendeu, afastou o hálito, apagou o brilho dos olhos e ela acordou. Ainda bem que sonhara, não teria então de explicar o contorno, o desenho a lápis, a borracha do tempo e das palavras. Melhor assim.

Pensava em como se sentia às vezes em relação a ele, pelo simples acaso de encontrá-lo por aí: uma raiva súbita, uma mágoa, a corroía. Mas ele lhe apontava um sorriso e a mágoa deixava de ter razão. Houve tempo em que não lhe sorria, e ela se sentia culpada: sabia ser a causa de um sofrimento evitável, sabia tê-lo magoado. Ao mesmo tempo, indignava-se, pois também estava magoada por toda aquela indiferença. Essa atmosfera tensa durou umas semanas e, enfim, cedeu lugar ao perdão – embora ela não acreditasse que o perdão seria sinônimo de desculpa. Mas foi: numa atmosfera amarela-sabática, voltaram a ser amigos-desde-sempre. Agora os sorrisos voltavam ao rosto de Matias, apontados para ela. Como sentir-se irada diante disso? Lembrou-se de que o sorriso foi uma das primeiras coisas que notara nele. Um dia, enquanto conversavam, ele sorriu sem querer sorrir: esticou levemente os lábios, deixando os dentes escondidos, como quem prende um riso. E foi a primeira vez em que ela o olhou como uma mulher olha um homem. Depois disso, já estavam perdidas as rédeas: ela cavalgava, sem estribo ou sela, um cavalo selvagem.

Agora fitava a nuvem cada vez mais distante. Já não via o rosto de Matias: em seu lugar havia apenas uma mão aberta a lhe fazer um aceno de despedida. Voltou a sentir o incômodo da garganta seca, reclamando a chuva que a nuvem levava para longe, numa mão agora fechada, como se escondesse dentro de si toda a água do mundo. Comprou uma garrafa de água mineral, sentiu o líquido gelado percorrer-lhe garganta, esôfago, estômago e sentiu que só aquilo lhe ficara de palpável. Os contornos guardavam o invisível, as sensações. Por isso era difícil livrar-se deles. Havia múltiplas sensações coloridas, pintadas docemente de lembranças, que a consolavam do adeus da nuvem. E havia a sede, palpável, concreta, loquaz. Afogou-se na água mineral de uma garrafa, no meio de uma rua larga, em pleno meio-dia. O calor da garganta projetou-se no asfalto e lhe subiu numa baforada quente que levou a nuvem para o horizonte, depositando-a sobre o invisível. Sede, nuvem e água se foram. Apenas as molduras continuavam: continuariam enquanto houvesse as lembranças e sensações coloridas. Estavam fixas a uma parede branca, para a qual olhava somente quando queria. Um dia, se desintegrariam e, como poeira fina, seriam levadas pelos ventos. Os mesmos ventos que levaram a nuvem seca.

sábado, 17 de outubro de 2009

Epitáfio


Carmem acabara de chegar do cemitério. Entrou no apartamento vazio, com seu cheiro em cada cômodo, e sentou-se defronte a uma janela aberta. Lá fora a chuva caía, fina e constante. Cá dentro, só o seu perfume e as lembranças de outros cheiros e outras datas. Lembrou de como eram bons os dias frios de chuva, quando admirava as nuvens com Mário. Sentavam-se por horas, conversavam, renovavam as juras com olhares de amor. Agora, a casa estava vazia, Mário havia ficado no cemitério, sob a chuva, sem céu nem nuvem, nem olhar algum. Já havia dois anos. Carmem foi até a sepultura do marido sem saber por quê. Não pensara em nada, não falara, apenas precisou de alguma coisa que não conhecia. Onde estava o perfume de Mário? Nenhum vão do apartamento havia guardado seu cheiro, nada restara a não ser as lembranças. E de repente, Carmem compreendeu: tinha ido ao cemitério procurar o cheiro que lhe embalara a vida. Uma lágrima escorreu-lhe pela face, denunciando que a viagem foi inútil.
Lá fora a chuva caía mais forte e pesada, contrastando com a lágrima suave de Carmem. Mas, a suavidade enganava. Era um fim de tarde intenso, de dor intensa, de latejar intenso. Saudade... e outra lágrima rolou, seguida por outras... Lembrou-se de quando se conheceram, do tempo de namoro (tantos anos depois, ele ainda a apresentava aos outros como “minha namorada”). Pensou depois no casamento, quis ver as fotos, foi buscar o álbum. Sentada no mesmo lugar, virava lentamente uma página, depois outra, e sobre cada uma pousava os olhos úmidos e sorria tristemente de lembranças. Não foi um casamento tradicional. Um dia, de manhã bem cedo, Mário apareceu na casa, dizendo que precisava urgentemente falar com Carmem. Ela abriu, assustada, temendo que algum problema tivesse acontecido. Mário, mal entrou, foi logo mostrando o anel e fazendo o pedido. Os pais consentiram, meio adormecidos ainda, e o casamento foi marcado. Porém, nada de vestido, terno, bolo, buquê. Mário era muito espirituoso: propôs um casamento civil, sem pompa, seguido por uma lua de mel em turnê pela Europa. “Quando a gente voltar, se faz um bolinho, se convidam uns amigos. Fazemos o convite assim: ‘Casamos. Deu tudo certo. Convidamos você a compartilhar da nossa alegria’” – Mário disse, em tom de brincadeira. E assim se deu. Todos protestaram, menos Carmem, e como era ela a única com poder de veto, fizeram do jeito que Mário propôs. Carmem sorriu ao relembrar essa travessura.
Ultimamente, Mário sentia constantes dores no peito. Foi a vários médicos, fez exames detalhados. O parecer do médico: coração frágil. A resposta de Mário: como pode ser, se tenho a mais linda namorada? O médico riu e lhe receitou repouso, remédios e exames periódicos. Carmem cuidava de tudo, os horários, a alimentação, o carinho. Neste passo se passaram 10 anos. E a fragilidade do coração cobrou um tributo pesado. Mário foi internado. A cada novo médico que se apresentava para o plantão, dizia: doutor, esta é minha namorada. E apontava para Carmem. Ela estava sempre ali. Lembrou-se do dia em que ele lhe disse: Carmem, meu coração vive da sua presença. Foi neste dia que ele saiu do hospital, mas não para casa... Ele tinha 87 anos, dos quais ela compartilhou 60.
Carmem tinha cada vez mais saudade do perfume de Mário, cheiro de sua presença amável. Então, com surpresa, um sorriso iluminou seu rosto: lembrava-se de ter restado um pouco desse perfume, guardado no armário. Sim, lá estava o frasco. Borrifou toda a casa, borrifou seu corpo, embriagou-se daquele cheiro antigo. Dois dias depois, foi encontrada na cadeira, em frente à janela, abraçada a um frasco de perfume e com um sorriso pétreo estampado no rosto. Deitaram-na numa sepultura ao lado da do marido. E não houve nada especial no epitáfio. No outro dia, os jornais noticiaram: “Velhinha bebe perfume e é encontrada morta!” De onde tiraram a idéia de que Carmem bebeu perfume? Não achavam outra explicação para o frasco encontrado em suas mãos, vazio. Mas então não se podia supor que houvesse amor? E que este tivesse seu próprio aroma? Agora, os perfumes só eram vendidos a velhinhos que provassem que não iam ingeri-los. Pobre humanidade...
No epitáfio de Carmem, escreveu-se apenas: “Aqui jaz Carmem Rocha Cruz, esposa de José Mário Cruz. 1930 - 2010” Nenhuma referência ao amor que os unia, ou aos aromas da chuva, ou aos olhares que trocaram. Nenhuma referência à vida que tiveram. Só a morte os unia agora. E, afinal, para que serve a poesia? O que mesmo é poesia? Em seu túmulo, ambos tinham terra molhada sobre o olfato inerte e, da posição em que estavam, fitariam noutros tempos estrelas, agora invisíveis. Mas, conservavam-se deitados lado a lado, indiferentes à insipidez do mundo. E, lentamente, sobre suas lápides, foram crescendo os ramos verdes de dois lírios brancos. Ah, alguém enfim havia permitido a poesia...

Entre o verde e o azul...

O garoto subiu no ônibus para pedir esmolas. Até aí, nenhuma novidade, os habitantes de nosso século veem, com frequência até demasiada, cenas como essa. Mas o que aconteceu a este garoto, só eu vi. Tão pequeno ele era, que nem conseguia pronunciar com clareza as palavras decoradas, que alguém lhe ensinou. Pedia mais fluentemente através dos olhos verdes que da boca gaga. Na mão, carregava uma bola, dessas de festa, com uma estampa impressa. Era seu brinquedo. Não sei como arranjou aquela bola, azul com estampa colorida, bonita e bem cheia. Enquanto pedia, tentava guardá-la numa sacola plástica. Foi então que ocorreu a fatalidade: algo na sacola fez com que a bola estourasse... O estrondo assustou o garoto, mas ele não derramou nenhuma lágrima. Apenas continuou pedindo, agora com seus olhos muito mais verdes. Olhei o menino, imaginei o que seria dele daqui a dez ou quinze anos... Sua voz gaga fazia um eco em mim – tão grande que meu coração de vidro entrou em ressonância e se partiu. Quantas vezes carregamos com cuidado nossos sonhos – azuis, festivos, bonitos – tentando protegê-los. E quantas vezes assistimos impotentes a sua destruição completa, enquanto pedimos, com o mar nos olhos, as esmolas de compreensão daqueles que existem a nosso redor. Talvez daqui a dez anos o garoto consiga chorar... Talvez um dia esvazie o verde de seus olhos... Até lá, a humanidade continuará tentando proteger seus sonhos e inundando as ruas com olhos que se secam e mudam de cor. Talvez daqui a dez anos, o garoto e eu consigamos perder o verde do nosso olhar mendigo. Mas receio que eu me afogue no mar que se formará...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Café com um estranho

CAPÍTULO II

Às 19h30min. chegou Artur ao Café. Laura já estava com duas xícaras vazias, concentrada, caneta indo e vindo sobre uma folha de papel. Viu Artur se aproximar e estendeu-lhe a folha.
-Está atrasado!
-Desculpe, peguei trânsito. Mas também lhe trouxe algo. Aqui está a verdadeira Verônica.

Ambos se puseram a ler o texto um do outro. Laura resolveu ler em voz alta o rascunho de Artur:

-“Senti o cheiro frio da noite chuvosa e pensei na paz. É o perfume característico da paz, este do mundo lavado e escuro. Dentro de mim, as coisas também estavam limpas, recém lavadas e mesmo assim sombrias... Sei do que sinto. Tenho a síndrome do coração roedor de mordaças. O perfume da chuva me trouxe à mente o perfume dele (aquele é indiscutivelmente o cheiro da paz – e ele é a visão e o encanto da minha serenidade desconstruída). A ansiedade mistura-se, concentrada, ao meu sangue e corrói vasos, células e órgãos inteiros por onde passa. Apenas ao esbarrar na imagem dele dilui-se. Dilui-se ao ponto de tornar-se irrisória. Paz. Como não querer bem a quem me proporciona paz? Gostaria de retribuir com um amor perfeito o presente involutário que recebo. Gostaria de pagar com as mais belas sensações, com os olhares mais ternos, com o afagar dos cabelos dele tudo o que me tem proporcionado sem saber. Preciso contribuir para a felicidade dele, fazê-lo ter motivos para distribuir sorrisos, dedicar a seus cabelos as carícias mais afetuosas que minhas mãos forem capazes de realizar. E desejo ardentemente permitir que ele sinta em mim o cheiro encantador da paz.” Tem alguma coisa boa aqui, mas de modo geral não gostei do estilo.
-Pois mude o estilo, prometi ajudar com a idéia, eu não sou escritor. O texto será seu ao final, algumas idéias serão minhas e tudo o que eu quero é o reconhecimento no prefácio. Quanto ao seu texto, está bem escrito, mas não posso dizer que Raul pensou nada significativo aqui.
-Ele não vai pensar até que surja a ocasião certa. Por enquanto é uma narrativa das situações que podem levá-lo aos pensamentos que terá.
-Se a proposta é essa, tudo bem. Mas acho que agora é você que está mudando o roteiro. E tenho só uma crítica a fazer: os homens também pensam durante o desenrolar das situações.
-Mas esse homem é meu. Ele vai pensar quando eu quiser que pense.
-Você está me saindo uma possessiva de primeira. Ainda bem que Artur é só um personagem, senão sairia correndo daqui agora e te deixaria com um livro inacabado nas mãos.
-Não sou possessiva, é que estou insegura quanto ao que não conheço. A insegurança provoca isso que parece posse e é só um grito ferido. Sabe, não quero escrever hoje. Podemos conversar?
-Claro, estamos no lugar certo. O que houve?
-O que você acharia de uma mulher que não sabe se refazer do que acontece?
-Acharia que é uma mulher sensível.
-E desequilibrada?
-Não, estável. O que faz a recuperação de alguém é a instabilidade que possui, mudam os ventos, mudam-se os costumes. Em se tratando de emoções, ser estável equivale a ser estagnado. Talvez essa mulher seja apenas alguém que precisa de mais tempo para se equilibrar. E para mudar. Mas por que a pergunta?
-Lembra da história que te contei, do meu amigo, da tempestade, da febre?
-Lembro.
-Encontrei com ele, por acaso, hoje pela manhã. Ele nem me reconheceu. Passou por mim e seguiu adiante. Eu estaquei assim que o vi dobrar a esquina, abri um sorriso e quase falei com ele. Mas nada disso foi notado.
-Tem certeza de que era ele?
-Tenho, absoluta! Os olhos, a boca, o jeito de andar, era ele.
-Talvez não seja. Quero dizer, talvez ele não seja mais o “ele” que você conheceu. Talvez já não beije ninguém sob a tempestade. Talvez só ande como ele, olhe como ele, mas não o seja mais, entende?
-Pode ser. Mas o que mais me perturba é não saber por que algo que aconteceu há tanto tempo me incomodou hoje. Indiscutivelmente, eu não me deixaria beijar por ele hoje.
-Essas coisas incomodam porque são uma lembrança boa que achamos compartilhar com outra pessoa e, de repente, percebemos que a guardamos sozinhos. Dói a solidão ignorada por tanto tempo. É o desatamento de um nó que nos prendia a quem já fomos. Um elo com o passado bom. Mas não significa que você não deve continuar guardando a boa lembrança, talvez ele tenha os nós que o ligam ao passado dele e você pode ter-se tornado irreconhecível, mas não esquecida.
-Você devia escrever mais vezes, até arranjar um bom estilo. Suas idéias até que fazem sentido. Nunca escreveu nada antes?
-Uma vez escrevi um poema para uma colega de escola por quem eu era apaixonado. Foi o melhor poema do mundo. Entreguei a ela, dizendo que era de Manuel Bandeira. Ela, que amava literatura, disse não conhecer o poema, mas analisou totalmente meu texto e achou lindo, sensível e muito literário. No ápice da empolgação, eu revelei o verdadeiro autor e ela me olhou espantada, segurou meu poema e nunca devolveu. Descobri através de um amigo que ela ainda o guarda...
-Então você já se passou por Bandeira? E com êxito?! Que fantástico. Mas e você e ela... ainda se falam?
-Não, por uma série de desencontros ela me interpretou mal e hoje é casada com outro homem. Perdemos o contato.
-Mas ainda guarda seu poema?
-Guarda. São os elos com o passado bom. Acha que você é a única? Já tentei reaver meu texto, mas ela não concorda em devolver. Então, parei de tentar.
-Sobre o que era o poema?
-Sobre os temas que se repetem. Não foi você quem disse que as belas histórias são sempre recontadas? Era isso, uma bela história, mais antiga do que nós. Talvez eu faça Verônica escrever um poema.
-Espero que sim. Você conhece um quadro de Magritte, chamado Amantes?
-Não.
-Pensei nele agora. É uma tela em que há um casal, beijando-se ternamente, mas com os rostos cobertos por um pano. A impressão que tenho com essa tela é que pouco se conhecem.
-Pode significar outra coisa: pouco se importam com o que não vêem. Não dizem que o amor é cego?
-E você acredita nisso, Artur? Acho que o amor deixa de ver quando quer. Vê bem até demais, vê os detalhes invisíveis a quaisquer outros olhos. Mas tira do campo visual o que incomoda, achando-se superior, capaz de mover os montes. O amor é cheio de fé, quer mover montanhas, é isso.
-Concordo, é isso. Mas acho que não é bem fé o que o amor tem, é algo mais parecido à credulidade.
-Pode ser que sim, mas às vezes é fé mesmo. Bom, seja lá o que for, ele não é cego.
-Achei a conversa de hoje enriquecedora. E você deu um grande passo rumo à comunicação. Se esse livro progredir assim teremos um best seller enorme, com um milhão de páginas.
-E numa delas quero o poema de Verônica, não se esqueça.
-Ok, não vou esquecer. Nos vemos aqui amanhã?
-Com certeza.

E veio a ser noitinha e veio a ser manhã. Segundo dia.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Café com um estranho

CAPÍTULO I

Abril começava a aparecer na folha do calendário. E era igual a março. Havia mais chuva, é verdade. E foi num dos dias chuvosos de abril que Laura sentou-se sozinha no Café. Estava molhada e despenteada, mas o cheiro que vinha do estabelecimento a agradava. Olhou as mesas ao redor, todas cheias, tinha sorte de haver encontrado uma. De repente, mal saboreara seu café, sentiu uma mão pousar sobre seu ombro e a pergunta: posso sentar aqui? Apenas por educação, respondeu que sim ao desconhecido, que logo se apresentou, chamava-se Artur, estava molhado e também amava o cheiro de café que vinha lá de dentro. Nele o desalinho dos cabelos caía bem, e Laura arrumou com os dedos os seus. Artur trazia um livro na mão: As Cosmicômicas, de Italo Calvino. O silêncio durou um minuto. Foi ele quem quebrou:


-Desculpe interromper seu silêncio meditativo, mas você ainda não me disse seu nome e eu não costumo comer com estranhos...
-Ah, sou Laura. Pronto, já não somos estranhos.
-Muito prazer, Laura. Agora que já nos conhecemos, pode ser sincera comigo: é muita sorte aparecer alguém para não te deixar tomar um café solitário, não é? Não que eu seja a melhor companhia do mundo, mas café é um hábito gregário, um rito que exige companhia e boa conversa.
-É verdade. Tenho sorte, se você me proporcionar uma boa conversa. Aliás, você também veio sozinho, parece que entrou aqui só para conversar comigo.
-Pode encarar assim, se te fizer bem ao ego. Estou aqui por um feliz acaso, e digo feliz acaso para mim também, não só para você. Eu ia tomar um café solitário e agora encontrei alguém gentil que me permitiu ter companhia enquanto satisfaço um dos meus melhores vícios. Falta apenas iniciar uma boa conversa.
-E o que seria, para você, uma boa conversa?
-Algo que tem um tema amplo e indefinido, vago, constantemente oscilando entre nada e lugar nenhum. Mas que acrescente ao espírito as cores que essa chuva tirou ao dia. Podemos falar de amores passados ou borboletas azuis; de filmes e cenas inesquecíveis ou de uma travessura de criança. Podemos contar histórias ou falar do que andamos lendo. São as melhores conversas.
-Concordo plenamente, e já que concordamos nisso, vou começar: quero saber que cena de filme você elegeria a melhor?
-Vou dar minha resposta de hoje, nada impede que amanhã minha opinião mude. O espírito humano é assim, inconstante, aberto a mudanças. Talvez amanhã eu já nem lembre da cena que mais me encanta hoje: Edith Piaf, ao saber da morte do amante, entrando no palco com todo o desespero nas mãos e as mãos sobre a cabeça, para cantar a música que compusera para ele, dias antes. Era o sofrimento fazendo o gênio, a dor gerando a artista.
-Não assisti ao filme, mas a descrição até me emocionou. Gosto de Edith Piaf, minha música favorita é La Vie en Rose. Conhece?
-C’est toi pour moi, moi pour toi, dans la vie... Sim, conheço. E você, que cena descreveria como preferida hoje? Amanhã, quando viermos tomar nosso café, quero ver se mantém sua opinião.
-Amanhã tomaremos café? Você é engraçado. A cena que eu descreveria como mais marcante é íntima demais para que eu a descreva a um semi-conhecido.
-Ok, você é daquelas pessoas que não se abrem... já entendi. Mas, com o tempo, você vai conseguir falar – ou eu vou descobrir! Gosto de desvendar mistérios e você parece ter muitos.
-Não, não muitos. Então, você quer saber alguma coisa sobre mim, bem, vejamos, já li o livro que você tem aí e gostei muito.
-Mesmo? Acabei de comprar, mas não sei bem se vou gostar. Gostei da proposta que ele apresenta.
-Vai gostar sim. Ele é engraçado, inteligente e envolvente. É uma série de contos que sempre trazem o mesmo personagem: kfwifk. Todo mundo que eu conheço chama esse personagem de um jeito diferente. Eu chamo qui-fu-i-fi-qui. E você?
-Ahm, deixa eu ver, me parece qui-fu-fi-qui. É, acho que é qui-fu-fi-qui. Qual é o conto que você mais gosta?
-O do surgimento das cores. Kfwifk é um personagem que atravessa a criação do universo experimentando todas as mudanças. De repente, as coisas começam a se transformar e surgem as cores, indefiníveis, e ele acha a mudança linda. Mas sua amiga, por quem ele é apaixonado, tem medo e escolhe morar no lado sombrio, que se fecha, perdendo a possibilidade de acesso. Ele fica só, num mundo multicolorido.
-Que coisa triste.
-Não é?
-Não estou falando do conto, é que você me contou o final!
-E o que tem de mau nisso? O autor conta muito melhor que eu. Nem tudo está perdido: as melhores histórias estão sendo sempre contadas, século após século, e nunca perdem o encanto.
-Agora sim a conversa começou a ficar interessante! Já pode me contar a cena?
-Não, ainda é cedo. Quer mais um café? A chuva não vai passar.
-Quero sim. Quando eu era criança, gostava de ver a chuva cair e molhar o vidro da janela. Dava a impressão de que o mundo ficava mais limpo e o cheiro de chuva me trazia uma paz que só se tem quando criança.
-Também gosto da chuva, do cheiro e da paz que já não tenho há alguns anos.
-Não tem paz há anos? Mas afinal o que é você?
-Ora, ora, você mesmo disse que não tem mais a paz de quando era criança!
-Sim, a paz de quando era criança, não a paz. Existem muitas outras pazes no mundo adulto e todas são maravilhosas. As crianças vivem num mundo próprio, com sua serenidade própria, dormem no meio da festa sem pudor, bocejam diante do comum, são sinceras sem pensar no que perdem – e não perdem nada mesmo. Esse mundo muda quando se cresce. Mas a paz continua em suas muitas outras formas, Senhorita Aflição!
-Sou apenas uma mulher preocupada com o futuro, com más lembranças do passado e que escreve para sobreviver. Desde que comecei a escrever, deixei de ter paz, mas tenho uns estados de graça que superam em muito a paz que não volta.
-E tem apenas más lembranças do passado? Seja sincera, se concentre e lembre de alguma coisa boa. Você consegue.
-É, eu consigo. Quando eu era mais nova, gostava de tomar banho de chuva e nunca me resfriava, ao contrário do que minha mãe dizia ao me ver toda molhada. Tive um amigo que me beijou durante uma tempestade, no meio de uma rua cinzenta e vi todas as cores do mundo acenderem a rua escura para nós dois. Cheguei ensopada em casa e foi a única vez em que tive febre. É uma lembrança boa de passado, você tem razão.
-É só se concentrar no lado bom, sempre funciona. Mas, então, você escreve? Que tipo de textos? Deixa eu adivinhar: mistérios! Ou então, tragédias!
-Errou! Ultimamente tenho escrito um romance muito moderno. Chama-se alguma coisa com café.
-Belo tema... Me conta sobre o que é a história.
-É sobre um dia chuvoso em que eu ia tomar um café sozinha, até que aparece um rapaz engraçadinho e resolve conversar a noite toda até os dois se afogarem em café... Não posso contar a história, perde o encanto e não consigo mais terminar.
-Ah, então não é sobre nós? Que pena. Quero ler esse romance quando estiver pronto. Não dá nem pra fazer uma sinopse?
-Vou tentar: não sei por onde começar. Não tenho nenhuma linha escrita, tudo ficou na minha cabeça, mas ainda não achou o caminho para os dedos.
-Então me conta um trecho qualquer, a idéia inicial, qualquer coisa, de repente eu te ajudo a achar o caminho.
-Certo. A idéia é a seguinte: quero dois personagens, um homem e uma mulher. Eles não se conhecerão. O livro narra os pensamentos e modos de ver o mundo de cada um, mas sem essa coisa de distinguir pensamento masculino e feminino.
-Vai ser um romance bem introspectivo. Parece interessante. E os personagens já pensaram alguma coisa até agora?
-Já. A mulher pensou mais ou menos isso. Vou escrever aqui porque assim meu texto fica melhor do que falado. “Nunca mais me senti tão feliz quanto naquele abril de 3 anos atrás. A preocupação é que me impede de me abandonar à alegria. Alegria é isso, o abandono, o se deixar levar pela correnteza insistente, sempre, sem se preocupar em onde isso vai dar. Quanto a mim, carrego o piano nos ombros. Esfolo o que há de melhor em mim e afasto com a dor a sombra da alegria levíssima. É realmente tão difícil abandornar-se nos braços do desconhecido? Para mim é. Hoje foi mais um dia de fuga de quem vive na segunda cidade mais violenta do país. Não se anda calmamente pelas ruas, passear é um verbo esquecido. Lembro de um professor que sempre falava da beleza das casas do Recife, os casarões, os cafés e as livrarias onde sempre se poderia encontrar poetas que conversavam sobre tudo. Não conheço nada disso, não passeio, vou aonde tenho de chegar. E volto de onde fui.”
-O que aconteceu no abril de 3 anos atrás?
-Quer que eu conte ou que ela continue?
-Por favor, deixe a personagem anônima falar. Precisamos dar um nome a ela, nomear as coisas é a primeira ação de um ser humano adulto. Eu sugiro Verônica.
-Pois que seja. Verônica. “Naquele abril havia no ar o perfume de gente que vive, e eu vivia. Acordei envolta nos braços dele, com a cabeça aconchegada ao peito que, lentamente, respirava. Eram meus momentos favoritos esses em que ele me abraçava enquanto dormia. Pensei que teria sempre aqueles momentos. Também amava quando ele me acordava afagando meus cabelos, eram gestos simples que dissipavam o mau-humor de recomeçar outro dia no mundo lá fora. Mal imaginava que dento de dois dias ele me diria aquilo: ‘Verônica, tenho uma amante, e estou indo embora de casa’. Aos seus pés, a mala pronta. A meus pés, um buraco negro.”
-A história está começando mal, você é muito negativa. Onde entra o personagem masculino que você disse que não conheceria Verônica?
-Entra a qualquer momento. Já disse que não escrevi nada ainda.
-Pois eu acho que você deveria escrever sobre o personagem masculino sem nome e deixar que eu me encarrego da história de Verônica. E mais: acho que eles podem se conhecer. Ele pode ser exatamente o cara que vai embora. Vamos fazer o seguinte: você conta a história do ponto de vista dele e eu conto o de Verônica.
-Você mudou todo o meu roteiro!
-Mudei. É um desafio! Aceita? Quero ver o quanto você pode conhecer das situações da vida de um homem...
-E eu espero que você conheça bem a mente de uma mulher traída, quero só ver.
-Então trate de dar o primeiro passo: nomeie o personagem.
-Ele se chama Raul. É moreno, magro, tem os ombros largos, mas os encolhe um pouco. O olhar é castanho claro e meio triste. Toca saxofone. Verônica o conheceu no Café com Partitura, lugar onde ele toca todas as noites. Daí o título ter alguma coisa com café.
-Ok, agora que já deu nome a ele, faça-o pensar alguma coisa. Mas tente ser mais positiva, nada de pensamentos depressivos, certo?
-Escrever sobre Raul é responsabilidade minha, não me diga como ele deve se sentir. Se ele tem o olhar triste e toca sax toda noite, não dá para imaginá-lo alegre o tempo todo. A idéia é um personagem reflexivo. Enquanto escrevo o que ele pensa, vá anotando aí a continuação da história de Verônica.
-São 23 horas. Preciso ir agora, Laura. Tudo certo para o nosso café amanhã? Trago os melhores pensamentos de Verônica, se você disser sim.
-E que escolha eu tenho? Amanhã, aqui, às 19 horas.
-Combinado. Boa noite.
-Boa noite.

E veio a ser noitinha e veio a ser manhã. Primeiro dia.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Colcha de Retalhos

A vida é uma colcha de retalhos
Costurados apressadamente
Uns aos outros.

Alguns lembram tecidos nobres,
Que adornariam princesas
Se inteiros pudessem ser...

Outros revelam-se farrapos,
Que se negariam a cobrir
Qualquer porção de um corpo qualquer...

Unimos todos os sonhos desfeitos,
Belos e suntuosos,
Aos insucessos e malogros,
Que um dia ousamos sofrer.
E faz-se a colcha de retalhos da vida.
Faz-se só, faz-se por si,
E de nós só exige o ato vil de costurar
Seus pedaços uns aos outros.

Carregamos os retalhos do que a vida nos deu
E com eles cobrimos o que não nos sobrou...
Carregamos e cobrimos,
Acreditando ser colcha
O que nunca foi mais que nosso santo sudário.

domingo, 6 de setembro de 2009

Castanholhar

Hoje uma cor do mundo me chamou a atenção: era o castanho-claro dos olhos de um jovem cego. Eu estava no ônibus, com os olhos postos na paisagem que mudava velozmente, quando senti sua mão tocar meu ombro e ouvi a pergunta: “Sabe me dizer que horas são?”. Desnorteada com a interrogação repentina e com o olhar penetrante e belo que o rapaz sequer sabia que possuía, respondi que não, não tinha relógio. É um hábito antigo: não uso relógio, detesto a escravidão ao tempo. O tempo é o único no planeta a desfrutar da eternidade e parece fugir do tédio cortando aos poucos o fio de nossas vidas. Nada escapa dele. Nem os belos olhos do rapaz escapariam... Meu coração encolheu-se numa dor profunda ao discernir que o jovem não via e nunca veria, provavelmente, a beleza de seus olhos. Talvez, se não fosse cego, conseguisse introduzir seu tom castanho-claro nos seres ao redor, captando-lhes a profundidade. Não duvido que viesse a possuir uma das chaves da compreensão humana. Parecia ter sido punido por essa capacidade... Ele desceu do ônibus tateando o chão com sua bengala e driblando os obstáculos que apareciam. Quem sabe estaria ciente do olhar que trazia... Ou será que se concentrava no problema mais imediato de não poder ver? Na tristeza de não saber que as cores dos olhares variam? Mas agora não me refiro mais ao jovem cego, refiro-me a mim e à parcela da humanidade que não enxerga suas próprias belezas... Refiro-me aos que têm, como eu, a tendência de concentrar-se nos defeitos que possuem e nos obstáculos que não transpõem por covardia. Refiro-me àqueles que apenas nos momentos de pouca iluminação percebem que são cegos num sentido mais grave... E que serão igualmente traspassados pela espada do tempo, descobrindo tarde demais que possuem tanto e que viveram tão pouco.

sábado, 29 de agosto de 2009

(In)Digesto

Conta-se que, Eresictão, por desrespeito à deusa da saciedade, foi atormentado com uma maldição eterna: teria fome insaciável. Nada do que ele comesse poderia amenizar sua angústia, nada. Comeu todos os seus rebanhos, os frutos dos seus pomares, os restos do lixo alheio – e nada. A fome continuava a roer-lhe. Até que um dia, comeu a si próprio através da boca da fome.

Há os que devoram livros: procuram, como traças, alimento no papel. Palavras soltas ou amarradas, placas ou pontas de setas que apontem: AQUI! ALI! As placas parecem escritas em língua anterior a Babel: musicadas, ritmadas, convidam à dança e embalam o sono. Mas à menor brisa, as setas mudam a direção. É inútil vigiá-las, os ventos vem e vão ao sabor de correntes desconhecidas. E o jeito é dormir com fome.

Mas isso foi há muito tempo. Hoje, os homens não desrespeitam mais a deusa da saciedade: nem acreditam nela, embora ofereçam sacrifícios diários em seu altar. Não têm mais rebanhos, não plantam mais pomares, reciclam o lixo.

Há os que procuram drogas para aliviar a fome: cola de sapato, maconha, poesia, violinos, canto gregoriano, prancha de surf, sapateado. A fome se vai. Depois da música – volta; depois dos versos – volta; depois do delírio – volta. Com a última gota de suor ou lágrima – ela sempre volta.

Conta-se que uma mutação no cromossomo 15 causa a patologia chamada síndrome de Prader-Willi. O indivíduo acometido por ela sente fome insaciável. Come todos os seus rebanhos, os frutos dos seus pomares, os restos do lixo alheio – e nada. A fome continua a roer-lhe. Até que um dia, come a si próprio através da boca da fome.

Há os que inventam para si uma resposta à pergunta que nem conhecem, como uma criança faminta desenha um bolo. A criança come o papel pintado, digere o amargo pedaço de desenho. E segue, ruminando, com alguma coisa, muito além do estômago, vazia...

Mas isso é muito raro e requer uma grande dose de azar. Hoje se faz pesquisa genética, os cromossomos constam em todos nos mapas.

Só uma coisa rói o homem de hoje: uma fome que ele não sabe a que veio nem o que quer: a Grande Fome de Fogo. Não respeita nenhuma deusa, não faz sacrifícios em nenhum altar e não consta em nenhum mapa. É a condição humana e aparece perdida e pequenina como uma estrela, que quanto mais se aproxima do horizonte, mais freneticamente pisca...

sábado, 15 de agosto de 2009

Amar com os olhos

Multidão de rostos iguais... A humanidade inteira se parecia, eram cópias exatas uns dos outros até que despontaste em meio a ela. Meus olhos te viram e negaram-se a abdicar de tal visão. Procuraram-te ansiosos em intervalos cada vez menores, até que se fixaram em ti, imóveis. Carreguei tua imagem comigo a todos os lugares que visitei, coloquei teu rosto em todas as faces que olhei. Até o fatídico dia em que te vi sorrir pela última vez, e vi teus olhos a murmurarem “adeus”, e vi teus cabelos reclamarem um afago que meus dedos receosos evitaram dar, e vi tuas mãos acenarem em despedida, e vi teus lábios me negarem o beijo ansiado, e vi tuas cores desbotarem mais e mais, e depois nada mais vi, pois deixaste-me cega e que mais haveria para se ver? Vi um mundo cada vez mais despojado da tua presença. Vi-te entre flores que te machucariam com seus espinhos, pois não és delicado o suficiente para colher o que tem espinhos ( e por isso eu havia abdicado dos meus, para tornar mais fácil o colher da flor...). Entendi cada vez mais claramente que só serias feliz comigo... mas já não podia ver-te em meio à névoa... Nem imaginavas tu que ali haveria uma flor sem espinhos que poderias colher sem medo... Ou não desejarias o que te fosse dado tão fácil?

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Ego

Descobri meu monstro! E me assustei ao ver em seu rosto meus lábios fechados, minha testa interrogativa, meu queixo contraído. Até então eu só conhecia a existência teórica dessa criatura que me expôs, de chofre, o putrefacto de mim. Caiu sobre mim ou caí sobre ela? Olho-a de relance nos espelhos que me refletem e estranho não ter percebido sua chegada. Será possível que veio de repente? Vai ficar para sempre? Assusto-me diante de mim. Há a sombra da criatura por todos os lugares que freqüento. Sim, sua sombra: quebrei os espelhos, mas não me livro da sombra. Existia já em mim tamanha aberração? Existia já em mim tamanha aberração. Existia já em mim tamanha aberração! “Ninguém é bom, exceto um só”, dizia Cristo. E eu não sou muito parecida àquele um. Minha bondade esbarra na sombra de meu monstro. Nunca o mirei no fundo dos olhos, posso ser aprisionada por seu olhar. Mas, num relance, fui olhada. Ele é eloqüente, mordaz e cínico. É sarcástico e ferino. Devora tudo, especialmente a mim. Meu monstro se chama Ego e não entende nada de psicanálise. Tem nome latino, de guerreiro romano que não sabia Latim, mas dominava à dura força os falantes de outras línguas.