CAPÍTULO I
Abril começava a aparecer na folha do calendário. E era igual a março. Havia mais chuva, é verdade. E foi num dos dias chuvosos de abril que Laura sentou-se sozinha no Café. Estava molhada e despenteada, mas o cheiro que vinha do estabelecimento a agradava. Olhou as mesas ao redor, todas cheias, tinha sorte de haver encontrado uma. De repente, mal saboreara seu café, sentiu uma mão pousar sobre seu ombro e a pergunta: posso sentar aqui? Apenas por educação, respondeu que sim ao desconhecido, que logo se apresentou, chamava-se Artur, estava molhado e também amava o cheiro de café que vinha lá de dentro. Nele o desalinho dos cabelos caía bem, e Laura arrumou com os dedos os seus. Artur trazia um livro na mão: As Cosmicômicas, de Italo Calvino. O silêncio durou um minuto. Foi ele quem quebrou:
-Desculpe interromper seu silêncio meditativo, mas você ainda não me disse seu nome e eu não costumo comer com estranhos...
-Ah, sou Laura. Pronto, já não somos estranhos.
-Muito prazer, Laura. Agora que já nos conhecemos, pode ser sincera comigo: é muita sorte aparecer alguém para não te deixar tomar um café solitário, não é? Não que eu seja a melhor companhia do mundo, mas café é um hábito gregário, um rito que exige companhia e boa conversa.
-É verdade. Tenho sorte, se você me proporcionar uma boa conversa. Aliás, você também veio sozinho, parece que entrou aqui só para conversar comigo.
-Pode encarar assim, se te fizer bem ao ego. Estou aqui por um feliz acaso, e digo feliz acaso para mim também, não só para você. Eu ia tomar um café solitário e agora encontrei alguém gentil que me permitiu ter companhia enquanto satisfaço um dos meus melhores vícios. Falta apenas iniciar uma boa conversa.
-E o que seria, para você, uma boa conversa?
-Algo que tem um tema amplo e indefinido, vago, constantemente oscilando entre nada e lugar nenhum. Mas que acrescente ao espírito as cores que essa chuva tirou ao dia. Podemos falar de amores passados ou borboletas azuis; de filmes e cenas inesquecíveis ou de uma travessura de criança. Podemos contar histórias ou falar do que andamos lendo. São as melhores conversas.
-Concordo plenamente, e já que concordamos nisso, vou começar: quero saber que cena de filme você elegeria a melhor?
-Vou dar minha resposta de hoje, nada impede que amanhã minha opinião mude. O espírito humano é assim, inconstante, aberto a mudanças. Talvez amanhã eu já nem lembre da cena que mais me encanta hoje: Edith Piaf, ao saber da morte do amante, entrando no palco com todo o desespero nas mãos e as mãos sobre a cabeça, para cantar a música que compusera para ele, dias antes. Era o sofrimento fazendo o gênio, a dor gerando a artista.
-Não assisti ao filme, mas a descrição até me emocionou. Gosto de Edith Piaf, minha música favorita é La Vie en Rose. Conhece?
-C’est toi pour moi, moi pour toi, dans la vie... Sim, conheço. E você, que cena descreveria como preferida hoje? Amanhã, quando viermos tomar nosso café, quero ver se mantém sua opinião.
-Amanhã tomaremos café? Você é engraçado. A cena que eu descreveria como mais marcante é íntima demais para que eu a descreva a um semi-conhecido.
-Ok, você é daquelas pessoas que não se abrem... já entendi. Mas, com o tempo, você vai conseguir falar – ou eu vou descobrir! Gosto de desvendar mistérios e você parece ter muitos.
-Não, não muitos. Então, você quer saber alguma coisa sobre mim, bem, vejamos, já li o livro que você tem aí e gostei muito.
-Mesmo? Acabei de comprar, mas não sei bem se vou gostar. Gostei da proposta que ele apresenta.
-Vai gostar sim. Ele é engraçado, inteligente e envolvente. É uma série de contos que sempre trazem o mesmo personagem: kfwifk. Todo mundo que eu conheço chama esse personagem de um jeito diferente. Eu chamo qui-fu-i-fi-qui. E você?
-Ahm, deixa eu ver, me parece qui-fu-fi-qui. É, acho que é qui-fu-fi-qui. Qual é o conto que você mais gosta?
-O do surgimento das cores. Kfwifk é um personagem que atravessa a criação do universo experimentando todas as mudanças. De repente, as coisas começam a se transformar e surgem as cores, indefiníveis, e ele acha a mudança linda. Mas sua amiga, por quem ele é apaixonado, tem medo e escolhe morar no lado sombrio, que se fecha, perdendo a possibilidade de acesso. Ele fica só, num mundo multicolorido.
-Que coisa triste.
-Não é?
-Não estou falando do conto, é que você me contou o final!
-E o que tem de mau nisso? O autor conta muito melhor que eu. Nem tudo está perdido: as melhores histórias estão sendo sempre contadas, século após século, e nunca perdem o encanto.
-Agora sim a conversa começou a ficar interessante! Já pode me contar a cena?
-Não, ainda é cedo. Quer mais um café? A chuva não vai passar.
-Quero sim. Quando eu era criança, gostava de ver a chuva cair e molhar o vidro da janela. Dava a impressão de que o mundo ficava mais limpo e o cheiro de chuva me trazia uma paz que só se tem quando criança.
-Também gosto da chuva, do cheiro e da paz que já não tenho há alguns anos.
-Não tem paz há anos? Mas afinal o que é você?
-Ora, ora, você mesmo disse que não tem mais a paz de quando era criança!
-Sim, a paz de quando era criança, não a paz. Existem muitas outras pazes no mundo adulto e todas são maravilhosas. As crianças vivem num mundo próprio, com sua serenidade própria, dormem no meio da festa sem pudor, bocejam diante do comum, são sinceras sem pensar no que perdem – e não perdem nada mesmo. Esse mundo muda quando se cresce. Mas a paz continua em suas muitas outras formas, Senhorita Aflição!
-Sou apenas uma mulher preocupada com o futuro, com más lembranças do passado e que escreve para sobreviver. Desde que comecei a escrever, deixei de ter paz, mas tenho uns estados de graça que superam em muito a paz que não volta.
-E tem apenas más lembranças do passado? Seja sincera, se concentre e lembre de alguma coisa boa. Você consegue.
-É, eu consigo. Quando eu era mais nova, gostava de tomar banho de chuva e nunca me resfriava, ao contrário do que minha mãe dizia ao me ver toda molhada. Tive um amigo que me beijou durante uma tempestade, no meio de uma rua cinzenta e vi todas as cores do mundo acenderem a rua escura para nós dois. Cheguei ensopada em casa e foi a única vez em que tive febre. É uma lembrança boa de passado, você tem razão.
-É só se concentrar no lado bom, sempre funciona. Mas, então, você escreve? Que tipo de textos? Deixa eu adivinhar: mistérios! Ou então, tragédias!
-Errou! Ultimamente tenho escrito um romance muito moderno. Chama-se alguma coisa com café.
-Belo tema... Me conta sobre o que é a história.
-É sobre um dia chuvoso em que eu ia tomar um café sozinha, até que aparece um rapaz engraçadinho e resolve conversar a noite toda até os dois se afogarem em café... Não posso contar a história, perde o encanto e não consigo mais terminar.
-Ah, então não é sobre nós? Que pena. Quero ler esse romance quando estiver pronto. Não dá nem pra fazer uma sinopse?
-Vou tentar: não sei por onde começar. Não tenho nenhuma linha escrita, tudo ficou na minha cabeça, mas ainda não achou o caminho para os dedos.
-Então me conta um trecho qualquer, a idéia inicial, qualquer coisa, de repente eu te ajudo a achar o caminho.
-Certo. A idéia é a seguinte: quero dois personagens, um homem e uma mulher. Eles não se conhecerão. O livro narra os pensamentos e modos de ver o mundo de cada um, mas sem essa coisa de distinguir pensamento masculino e feminino.
-Vai ser um romance bem introspectivo. Parece interessante. E os personagens já pensaram alguma coisa até agora?
-Já. A mulher pensou mais ou menos isso. Vou escrever aqui porque assim meu texto fica melhor do que falado. “Nunca mais me senti tão feliz quanto naquele abril de 3 anos atrás. A preocupação é que me impede de me abandonar à alegria. Alegria é isso, o abandono, o se deixar levar pela correnteza insistente, sempre, sem se preocupar em onde isso vai dar. Quanto a mim, carrego o piano nos ombros. Esfolo o que há de melhor em mim e afasto com a dor a sombra da alegria levíssima. É realmente tão difícil abandornar-se nos braços do desconhecido? Para mim é. Hoje foi mais um dia de fuga de quem vive na segunda cidade mais violenta do país. Não se anda calmamente pelas ruas, passear é um verbo esquecido. Lembro de um professor que sempre falava da beleza das casas do Recife, os casarões, os cafés e as livrarias onde sempre se poderia encontrar poetas que conversavam sobre tudo. Não conheço nada disso, não passeio, vou aonde tenho de chegar. E volto de onde fui.”
-O que aconteceu no abril de 3 anos atrás?
-Quer que eu conte ou que ela continue?
-Por favor, deixe a personagem anônima falar. Precisamos dar um nome a ela, nomear as coisas é a primeira ação de um ser humano adulto. Eu sugiro Verônica.
-Pois que seja. Verônica. “Naquele abril havia no ar o perfume de gente que vive, e eu vivia. Acordei envolta nos braços dele, com a cabeça aconchegada ao peito que, lentamente, respirava. Eram meus momentos favoritos esses em que ele me abraçava enquanto dormia. Pensei que teria sempre aqueles momentos. Também amava quando ele me acordava afagando meus cabelos, eram gestos simples que dissipavam o mau-humor de recomeçar outro dia no mundo lá fora. Mal imaginava que dento de dois dias ele me diria aquilo: ‘Verônica, tenho uma amante, e estou indo embora de casa’. Aos seus pés, a mala pronta. A meus pés, um buraco negro.”
-A história está começando mal, você é muito negativa. Onde entra o personagem masculino que você disse que não conheceria Verônica?
-Entra a qualquer momento. Já disse que não escrevi nada ainda.
-Pois eu acho que você deveria escrever sobre o personagem masculino sem nome e deixar que eu me encarrego da história de Verônica. E mais: acho que eles podem se conhecer. Ele pode ser exatamente o cara que vai embora. Vamos fazer o seguinte: você conta a história do ponto de vista dele e eu conto o de Verônica.
-Você mudou todo o meu roteiro!
-Mudei. É um desafio! Aceita? Quero ver o quanto você pode conhecer das situações da vida de um homem...
-E eu espero que você conheça bem a mente de uma mulher traída, quero só ver.
-Então trate de dar o primeiro passo: nomeie o personagem.
-Ele se chama Raul. É moreno, magro, tem os ombros largos, mas os encolhe um pouco. O olhar é castanho claro e meio triste. Toca saxofone. Verônica o conheceu no Café com Partitura, lugar onde ele toca todas as noites. Daí o título ter alguma coisa com café.
-Ok, agora que já deu nome a ele, faça-o pensar alguma coisa. Mas tente ser mais positiva, nada de pensamentos depressivos, certo?
-Escrever sobre Raul é responsabilidade minha, não me diga como ele deve se sentir. Se ele tem o olhar triste e toca sax toda noite, não dá para imaginá-lo alegre o tempo todo. A idéia é um personagem reflexivo. Enquanto escrevo o que ele pensa, vá anotando aí a continuação da história de Verônica.
-São 23 horas. Preciso ir agora, Laura. Tudo certo para o nosso café amanhã? Trago os melhores pensamentos de Verônica, se você disser sim.
-E que escolha eu tenho? Amanhã, aqui, às 19 horas.
-Combinado. Boa noite.
-Boa noite.
E veio a ser noitinha e veio a ser manhã. Primeiro dia.